Todo mundo tem na vida uma criatura com a qual não vai com a cara.
Sempre tem uma pessoa que não lhe causa empatia, o santo não bate.
Nem precisa conhecê-la ou mesmo que ela tenha lhe feito alguma coisa. É assim: olhou e não gostou.
Se formos procurar o fundamento desta antipatia gratuita podemos descobrir assuntos pendentes de vidas passadas e coisas do gênero. Mas isso representa muita profundidade para o nosso SFA.
Eu sou ligeiramente antipática, meio sebosinha mesmo, daquela que olha alguém, não gosta e fim, não cumprimento nem chego perto.
Pode me chamar do que quiser, pra mim é questão de higiene.
Mas quanto mais eu rezo, mais assombração aparece. E essa assombração estava bem viva.
Lá vai uma nova história.
Semanalmente faço as unhas num salão próximo ao meu trabalho, sempre nos mesmos dias e horários e com as mesmas profissionais. Mas esta semana não foi bem assim.
A manicure não tinha horário disponível e a pedicure também estava com a agenda cheia. Essa ainda consegui em outro dia, mas num horário estranho, mas era o que dava. Então marquei a pedicure e uma outra manicure que tinha disponível no mesmo horário.
Se tem uma coisa que eu não gosto é esperar, mas como cheguei antes da hora tive que esperar um pouco. Saquei uma revista de fofocas do mafuá de revistas e fui folhear.
Folhear sim, porque não dá pra ler aquilo. O script de um folhetim de fofocas é sempre o mesmo: Profissão, Nome + Sobrenome, Idade. O resto do texto são futilidades. E quando a entrevistada não tem profissão, chamam de modelo. Sacanagem com as modelos profissionais. Mas enfim…
Chegou minha vez e a “nicure” me chamou. Ao atravessar a sala, uma certa mulher me seguiu com o olhar. Aquele olhar curioso de varredura.
Cara bolachuda de retirante, zarolha e metida a sexóloga.
Sentada, tendo as patas traseiras sendo cuidadas, tinha uma sacola de coisinhas coloridas sendo curiosamente inspecionadas pela meninas, que cheiravam dentro da sacola e davam risinhos nervosos.
Se aquilo não era um bagulhinho que estava deixando a mulherada doidona, devia ser qualquer coisa de apelo erótico.
Lógico… Eram calcinhas fio dental coloridas e perfumadas. Deviam ser calcinhas hediondas e ainda por cima com perfume. Fala sério!
Vai ver tinham cheiro de motel de 5ª ou então cheirinho da loló…
A tal criatura, de longe, me ofereceu pra ver, mas eu antipaticamente recusei.
Depois ela ficou exibindo um envelope rosa com adesivo de coração dizendo que era um tributo ao amor e que ia entregá-lo ao seu pretendente.
Observação 1: Que merda é essa de envelopinho rosa, adesivo de coração, papel de carta enfeitadinho?
Isso foi coisa de adolescente dos anos 80 e ela, pela cara de maracujá, deve ter passado a adolescência nos Anos Dourados, mas pra ela Anos Folheados a Ouro já é lucro.
Observação 2: Que fique claro que a palavra tributo foi aplicada por mim para ficar elegante. Ela disse qualquer outra coisa oriunda do seu parco vocabulário.
Observação 3: Coitado do eleito a pretendente. Ou pecou demais e agora precisa se purificar praticando caridade ou é uma alma sem chance de recuperação mesmo.
Depois do pé pronto a dita cuja anunciou que ia embora.
Levantou-se, olhou direto para mim e soltou o petardo: “Você é a mulher do Nelson, né?”
Gelei num misto de ciúme e indignação. “Como é que essa siriema conhece o meu marido?”
Respondi com um “Sim!” muito do nojento.
Ela, em cócegas, ficou se remexendo para que eu perguntasse de onde me conhecia ou de onde conhecia ele, mas não dei esse gostinho àquela garça vesga.
Mas ela não desistiu e mandou mais uma: “Já te vi várias vezes.”
Eu levantei os olhos e a fitei com desdém, mas por dentro queria afogá-la num pote de acetona. Também não parava de pensar de onde ela poderia me conhecer. Não conseguia me lembrar de onde eu tinha a sensação de já tê-la visto e nunca ter gostado dequele focinho.
Mas gente chata e inervante não desiste. Ela conclui: “Lá de Anchieta.”
“Ah, sim. Claro!” - respondi concordando, articulando os lábios num sorriso verde musgo porque amarelo lembra dourado e dourado é muito precioso.
Mas ainda não me lembrava dela.
Por fim ela foi embora, com cara de cu sujo, porque não dei a mínima pro veneno dela.
E num estalo me lembrei da criatura. Ela costuma frequentar o mesmo centro umbandista onde o meu marido trabalha. E lá, apesar de ser uma casa séria de trabalhos espirituais e caridade, tem gente que acha que vai arrumar marido ou macho. Ela e mais umas duas vagaranhas que tem lá não podem ver o Nelson que começam a aloprar e soltam as penas para chamar a atenção dele.
Realmente nunca gostei das cornebas dela desde a primeira vez que a vi. Mas enfim, assombração é assim mesmo, te acha quando você menos espera.
SFA gigante pra mim que sou ciumenta e tenho um marido bonito demais que chama atenção desde de criancinha de colo até velhinhas de bengala.
Imagina a cobiça que gera!
E SFA para a siriema zarolha que não conseguiu me ver insana de ciúme. Eu não ia pagar esse mico “merrrmo”. Mas que deu vontade de arremessar ela pela janela… Ah deu!
PS.: Siriema voa?
εϊз Farfalla bacio
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