Pimenta coreana não é Ching Ling

Diferentes países possuem diferentes culturas e hábitos ainda mais distintos. Sejam comportamentais, lingüísticos, alimentares etc.

É sempre bom ter alguma noção desses detalhes para não cair em armadilhas.

 

Povos orientais, na minha opinião, são os que tem hábitos mais diferentes dos ditos ocidentais (ou seriam neandertais).

 

A cozinha oriental não é para mim muito palatável, ainda mais por essa mania de comer frutos do mar crus. Também sou meio fraca pra sabores picantes.

 

Acontece que um amigo, recém chegado à Coréia do Sul e não desavisado relatou-me a seguinte experiência:

 

Dias antes de embarcar para Seoul, uma pessoa que já tinha ido pra lá antes lhe deu algumas dicas de como se virar naquele país tão longínquo.

A Coréia do Sul é está a milhas e milhas do Brasil: são 18.153km (Fonte: Geobytes), 12 horas de diferença de fuso horário e um idioma que não tem a menor semelhança sequer com o inglês.

Seguem as dicas de ouro básicas da cultura sul-coreana:

Primeira: X com os dedos quer dizer não;

Segunda: Não ingere-se líquidos durante as refeições;

Terceira: Nem todo molho vermelho é molho de tomate.

 

Apesar dele não ter problemas com alimentação, – come literalmente de tudo – na Coréia comer de tudo é comer arroz, macarrão, algas, vegetais e peixes.

 

Todos os dias havia no almoço um arroz branquinho “unidos venceremos pela vida eterna” e macarrão gelado. No lugar de macarrão leia-se: uma massa esbranquiçada sem sabor ou odor, algo que nem de longe lembra uma suculenta massa ao sugo com manjericão, tipicamente italiana.

Para aquecer o macarrão normalmente utilizava-se água quente ou molho de caldo de peixe.

Cansado daquela monotonia gastronômica um dia resolveu inovar e seguindo a primeira regra de ouro fez o sinal de negação para a atendente. Ela resmungou algo ininteligível, pelo rosnado e pelo idioma.

Ávido por algo mais colorido e saboroso para o seu lauto prato de macarrão optou por cobri-lo com um saborosíssimo molho bem vermelho e suculento.

 

Sentou-se à mesa feliz com seu prato italo-coreano. Certo que sua escolha era acertada e que seu macarrão gelado estaria bem quente com o molho… Salivava.

Já na primeira hachiada (minha etimologia de garfada para o uso do hachi, os pauzinhos japoneses) ele sentiu que a comida estava pelando.

Se há momentos em que a fome é o melhor tempero e o calor é psicológico, aquele era o instante da gula incendiária.

Apesar dos olhos marejados de lágrimas, o suor vertendo em rios e o funga-funga de um nariz lacrimoso ele não largou a comida. E para piorar a situação a água só viria ao final da refeição, vide segunda regra de ouro.

 

Enquanto ele comia, lembrou-se da atendente que balbuciou alguma coisa que ele não foi capaz de compreender e pensou no quanto seria útil saber coreano. Sofrido e com a boca quase doendo de tanto ardor ele chegou a algumas conclusões, as quais você deve adicionar ao seu caderninho, caso pretenda ir à Coréia um dia:

  • Salgado não é picante. Salgado deixa seqüelas: você passa o resto do dia bebendo água feito esponja e mijando feito um chafariz. Já o picante, depois do ápice da ardência, tende a se dissipar.
  • O que entra ardendo, sai ardendo.
  • Comer pimenta é como um vício: apesar dos efeitos colaterais você acaba se acostumando e sentindo falta dela.

 

SFA ardido Made in Korea.

 

εϊз Farfalla bacio

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