Burguesinha e as aventuras do blackout

Todo mundo tem uma história triste pra contar do dia do apagão. Dessa vez não tive nenhuma.

Estava em casa, na paz, muito bem acompanhada

 

Mas nem todos tiveram a mesma sorte que eu e acabaram vindo parar aqui no SFA.

 

Quando eu digo que maluco atrai maluco, eu tenho razão. Isso tem fundamento científico. Tem a ver com a energia que emana do nosso campo magnético e os tantans devem vibrar numa freqüência parecida.

Que seja.

 

 

Tenho uma amiga que é uma figura. Ela é divertida, fala pelos cotovelos, ligeiramente perua, mas leva mais jeito de patricinha/arrumadinha. Ela mora longe pra Bangu e tem histórias engraçadíssimas do trem. E depois de um apagão, ela tinha que ter algo tragicômico para contar.

 

Ela sai da pós-graduação já meio tarde e pega o trem na Central.

Olhando para ela ninguém diz que aquela loirinha, mignon, toda arrumadinha, de scarpin altíssimo e com cara de menina burguesinha da Zona Sul, mora em Bangu e é barraqueira.

Pois bem, mal tinha embarcado no Expresso Baixada aconteceu o apagão.

Em plena estação São Cristóvão, todos os passageiros desembarcam e foram, pouco a pouco, esvaziando a plataforma e tomando rumos distintos.

Ela e mais alguns gatos pingados acabaram ficando por ali na esperança do retorno da energia, que não voltou.

Já passava das 1h da madrugada quando os então gatos, a esta altura já bem vira-latas, decidiram tomar um táxi e rachar a corrida até a baixada.

Quem mora mal assim tem que ter algo de bom, neste caso, a solidariedade foi o ponto alto.

 

Seguem até o viaduto para ver o movimento e esbarram com umas “meninas” que faziam “ponto” ali.

Como a união faz a força, as “meninas”, imbuídas do espírito de bondade, ajudaram o grupo a tomar um, já muito escasso, táxi.

Grupo encaminhado ao seu destino, cada um teria que pagar R$ 15,00.

Àquela hora da madrugada, naquele lugar, nas circunstâncias do momento, isso era uma merreca.

Mas pobre é uma merda.

Minha amiga estava catando as moedas para juntar esta quantia ajudada pela luz do celular, ela catava moedas de 5 e 10 centavos para completar a soma total.

 

- “Ufa! R$15,00 e ainda sobrou R$0,15.” - pensou a pobre coitada.

 

Chegou em casa com aquele calor infernal e sem luz. Geladeira sem um fiapo de ar frio. De dentro dela saía um bafo morno. Tinha virado estufa.

Água morna é laxante. Comida estragada é infecção intestinal garantida.  Ficar com sede e fome parecia uma escolha sensata.

 

E começou a busca por um cotoco de vela para, mesmo que bruxuleantemente, iluminar cômodos da casa.

Nada. Nem vela a criatura tinha em casa.

Essa tinha mesmo que se fuder.

 

Terminou a saga tomando banho com uma só mão, de cuia (porque quando falta luz, em seguida, falta água), e com a outra mão segurava o celular para clarear o pouco que dava.

E a cereja do bolo veio com o fim da bateria.

 

Vai SFA assim lá em Bangu!

 

εϊз Farfalla bacio

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6 Comments on "Burguesinha e as aventuras do blackout"

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